A camisa 9 pesa, mas não define Matheus Cunha
A escolha de Matheus Cunha como camisa 9 da Seleção Brasileira na Copa do Mundo mexe com uma memória afetiva poderosa. No Brasil, esse número carrega imagens de área cheia, arrancadas decisivas, gols em final e, claro, Ronaldo Fenômeno. É natural que parte da torcida olhe para a numeração e espere um centroavante clássico, fixo entre os zagueiros, pronto para finalizar cruzamentos e viver dentro da área.
O problema é que Matheus Cunha não cabe tão bem nessa moldura. E isso está longe de ser um defeito. O atacante do Manchester United, onde usa a camisa 10, chega à Seleção como uma peça de mobilidade, associação e leitura de espaços. Pode começar centralizado, pode aparecer como referência, mas seu futebol se fortalece quando ele sai da posição, atrai marcação e abre corredores para quem vem de trás ou ataca a profundidade.
Essa diferença entre número e função explica o debate. A camisa sugere um 9 tradicional. O jogo mostra um falso nove, ou um atacante de conexão, capaz de misturar força, condução e passe no último terço.
O estigma do centroavante brasileiro
De Ronaldo a uma nova leitura da função
A camisa 9 da Seleção Brasileira sempre foi tratada como símbolo de artilharia. Ronaldo virou a referência máxima, mas antes e depois dele outros atacantes ajudaram a consolidar a ideia de que o dono do número precisa ser goleador absoluto. Esse imaginário pesa. Qualquer jogador que vista a 9 e não entregue uma pilha de gols passa a ser julgado por uma régua talvez errada.
Com Matheus Cunha, o risco é exatamente esse. Se a análise ficar presa ao número, haverá cobrança por comportamentos que não são o centro do repertório dele. Cunha não é o atacante que fica parado esperando a bola. Ele gosta de participar da construção, baixar entre linhas, acelerar em diagonal e servir companheiros. Em muitos momentos, o valor está no movimento que antecede o gol, não apenas na finalização.
Esse tipo de atacante é comum no futebol europeu moderno. Times de elite procuram jogadores capazes de embaralhar a marcação, não só finalizar jogadas. A Seleção de Carlo Ancelotti parece caminhar nessa direção ao enxergar em Cunha uma peça tática, não apenas um camisa 9 de álbum.
A trajetória explica o jogador
Wolverhampton, Hertha e Atlético de Madrid ajudam a entender
Matheus Cunha já atuou como centroavante em diferentes fases da carreira, especialmente no Hertha Berlin, mas nunca foi um 9 ortodoxo. Na Bundesliga, quando assumiu protagonismo na temporada 2020/21, marcou sete gols e deu quatro assistências. Mais importante do que os números brutos foi o perfil: quase dois passes-chave por jogo, muita participação fora da área e presença constante na criação.
No Wolverhampton, o encaixe foi ainda mais claro. Em um 3-4-2-1, começou aberto pela esquerda e depois passou a atuar como meia-atacante atrás de um homem de referência. Ali, encontrou um ambiente que valorizava suas melhores virtudes. Cunha tinha liberdade para receber entre linhas, carregar a bola e atacar a defesa em movimento. O resultado apareceu no desempenho e abriu caminho para a transferência ao Manchester United.
O período no Atlético de Madrid foi menos convincente justamente porque houve dificuldade de encaixe. Em um contexto mais rígido, muitas vezes se esperava dele um comportamento que não correspondia ao seu jogo. A passagem pela Espanha não deve ser lida como fracasso técnico isolado, mas como exemplo de como a função pesa na avaliação de um atleta.
Premier League elevou o patamar
Produção ofensiva e impacto no Manchester United
A ida à Premier League fez bem a Matheus Cunha. Ele se tornou mais agressivo no terço final sem perder a capacidade de criar. No Wolverhampton, marcou 12 gols a partir de 9,49 de gols esperados, além de sete assistências. Depois, consolidou a evolução com uma marca expressiva: 15 gols na temporada 2024/25, recorde de bolas na rede para um brasileiro em uma edição da Premier League.
Esses dados ajudam a desmontar uma leitura simplista. Cunha não é um centroavante clássico, mas também não é um atacante pouco produtivo. Ele finaliza, pisa na área e decide. A diferença é que seus gols surgem mais de movimentos dinâmicos do que de presença estática. Muitas vezes ele participa da jogada, sai da área, devolve a bola e aparece novamente em zona de finalização.
No Manchester United, essa evolução interessa também ao departamento de análise e observação do clube. Um jogador capaz de atuar como 9 móvel, segundo atacante ou meia ofensivo amplia possibilidades de escalação. Para a Seleção, a lógica é parecida. Ancelotti ganha uma alternativa flexível para mudar o ataque sem precisar trocar necessariamente as peças.
Como Ancelotti pode usar Cunha
O 4-2-4 e a parceria com Vinícius Júnior
No desenho testado por Carlo Ancelotti, o Brasil apareceu em um 4-2-4 com dois atacantes centrais. Nesse cenário, Matheus Cunha costuma atuar ao lado de Vinícius Júnior. A combinação é interessante porque os movimentos se completam. Cunha baixa para organizar e atrair zagueiros. Vini ataca o espaço, acelera às costas da defesa e transforma qualquer passe vertical em ameaça.
É uma dinâmica que lembra conceitos modernos de dupla ofensiva. Um jogador aproxima e conecta. O outro rompe. Quando funciona, a defesa adversária fica em dúvida: acompanha Cunha e abre buraco, ou mantém a linha e permite que ele gire com liberdade?
A vitória sobre o Paraguai reforçou essa leitura. Cunha entrou no lugar de Richarlison e participou diretamente do gol de Vinícius Júnior, combinando força, velocidade e tomada de decisão. Foi o tipo de lance que explica por que Ancelotti se encantou com o atacante: não houve apenas presença física, mas entendimento do momento certo para acelerar.
Número irrelevante, função decisiva
A primeira Copa e o desafio da percepção pública
Aos 27 anos, Matheus Cunha chega à primeira Copa do Mundo em um ponto maduro da carreira. Ele próprio minimizou o peso da numeração e tratou a convocação como parte de um caminho construído. A declaração faz sentido. Para o jogador, a camisa pode ser detalhe. Para o torcedor, porém, o símbolo fala alto.
A comunicação em torno dele será importante. Se Cunha for tratado como sucessor direto de grandes artilheiros da 9, a cobrança pode desviar o foco. Se for entendido como falso nove, articulador ofensivo e peça de pressão, sua importância fica mais clara.
Ancelotti, experiente em administrar estrelas e funções, parece saber disso. O treinador italiano não precisa de um 9 apenas para ocupar a área. Precisa de alguém que melhore Vinícius Júnior, conecte o meio ao ataque e dê ao Brasil uma saída contra defesas fechadas. Cunha oferece exatamente esse pacote.
O impacto para a Seleção Brasileira
A presença de Matheus Cunha como camisa 9 pode ser um ponto de virada na forma como o Brasil interpreta a posição. O futebol de seleções, cada vez mais curto em tempo de treino, valoriza jogadores inteligentes e adaptáveis. Cunha não entrega apenas gol. Entrega leitura, mobilidade e capacidade de mudar a altura do ataque.
Isso não elimina a necessidade de finalização. Em Copa do Mundo, a camisa 9 sempre será cobrada por gols. Mas reduzir o debate a isso empobrece a análise. Se o Brasil criar mais, se Vinícius Júnior receber em vantagem e se os meias encontrarem linhas de passe, parte desse mérito poderá estar nos movimentos discretos de Cunha.
O estigma negativo existe porque a memória da 9 é pesada. Ainda assim, a escolha pode ser acertada justamente por contrariar o clichê. Matheus Cunha não precisa ser Ronaldo, nem fingir ser um centroavante de área. Precisa ser o jogador que Ancelotti enxerga: móvel, intenso, criativo e capaz de fazer o ataque brasileiro respirar melhor.
Perguntas frequentes
Matheus Cunha é centroavante tradicional? Não. Ele pode atuar centralizado, mas seu perfil é mais próximo de um falso nove ou atacante de ligação, com muita movimentação e participação na criação.
Por que a camisa 9 pode gerar cobrança sobre Matheus Cunha? Porque a torcida brasileira associa historicamente a camisa 9 a goleadores clássicos, como Ronaldo Fenômeno, enquanto Cunha exerce funções mais móveis e criativas.
Como Ancelotti deve usar Matheus Cunha na Seleção? A tendência é que ele atue como atacante central móvel, baixando para conectar jogadas e abrindo espaços para Vinícius Júnior atacar a profundidade.